Nas últimas décadas, a imunoterapia transformou o tratamento de diversos tipos de câncer. Em vez de atuar diretamente sobre as células tumorais, como acontece com a quimioterapia, essa estratégia estimula ou fortalece o sistema imunológico para que ele reconheça e destrua as células cancerígenas.

Embora nem todos os pacientes sejam candidatos a esse tipo de tratamento, a imunoterapia trouxe benefícios importantes para muitas pessoas, aumentando as taxas de resposta, prolongando a sobrevida e, em alguns casos, proporcionando controle da doença por muitos anos.

Hoje, ela faz parte do tratamento de diversos tumores, incluindo alguns cânceres gastrointestinais e urológicos.

Como funciona o sistema imunológico?

O sistema imunológico é responsável por proteger o organismo contra vírus, bactérias e outras ameaças. Além disso, ele também consegue identificar células anormais, incluindo células que podem dar origem ao câncer.

No entanto, os tumores desenvolvem mecanismos para escapar dessa vigilância natural. Eles podem “desligar” as células de defesa por meio de proteínas que funcionam como verdadeiros freios do sistema imunológico. Dessa forma, mesmo estando presentes, as células de defesa deixam de reconhecer ou atacar o câncer.

A principal função da imunoterapia é bloquear esses mecanismos de escape, permitindo que o sistema imunológico volte a reconhecer e combater o tumor.

Como a imunoterapia é administrada?

Na maioria dos casos, a imunoterapia é administrada por via intravenosa, em ambiente ambulatorial, geralmente a cada duas, três, quatro ou seis semanas, dependendo do medicamento utilizado.

O tratamento pode ser realizado isoladamente ou combinado com quimioterapia, terapias-alvo, radioterapia ou cirurgia, conforme o tipo e o estágio do câncer.

A duração varia conforme cada situação clínica. Alguns pacientes recebem imunoterapia por um período determinado, enquanto outros permanecem em tratamento enquanto houver benefício e boa tolerância.

Todos os pacientes podem receber imunoterapia?

Não.

A imunoterapia não é eficaz para todos os tipos de câncer nem para todos os pacientes com o mesmo diagnóstico.

Por esse motivo, antes de indicar o tratamento, o oncologista avalia diversas características do tumor e do paciente. Em muitos casos, são necessários exames específicos realizados na biópsia, conhecidos como biomarcadores, que ajudam a prever a chance de resposta.

Esses testes fazem parte do conceito de medicina de precisão, permitindo selecionar os pacientes com maior probabilidade de benefício.

Biomarcadores que ajudam a indicar a imunoterapia

Diversos biomarcadores podem orientar a indicação da imunoterapia.

Um dos mais conhecidos é a expressão da proteína PD-L1, presente em alguns tumores. Quanto maior sua expressão, maior pode ser a chance de resposta em determinadas doenças, embora esse marcador nem sempre seja suficiente para definir o tratamento.

Outro biomarcador importante é a deficiência do sistema de reparo do DNA (dMMR) ou a instabilidade de microssatélites (MSI-H). Tumores com essas características apresentam grande quantidade de alterações genéticas, tornando-se mais facilmente reconhecidos pelo sistema imunológico. Nesses casos, a imunoterapia costuma apresentar excelentes resultados.

Além desses, outros testes moleculares podem ser indicados em situações específicas, dependendo do tipo de câncer.

Imunoterapia nos cânceres gastrointestinais

Nos últimos anos, a imunoterapia passou a fazer parte do tratamento de diversos tumores do aparelho digestivo.

Câncer de esôfago

A imunoterapia pode ser utilizada em pacientes com câncer de esôfago localizado, após quimiorradioterapia seguida de cirurgia, reduzindo o risco de recorrência em casos selecionados.

Nos tumores avançados ou metastáticos, ela frequentemente é combinada à quimioterapia como tratamento inicial, principalmente quando o tumor apresenta expressão de PD-L1.

Câncer de estômago

Em pacientes com câncer gástrico avançado, a imunoterapia pode ser associada à quimioterapia desde o início do tratamento.

Além disso, tumores com deficiência das enzimas de reparo do DNA (dMMR/MSI-H) apresentam taxas de resposta particularmente elevadas, podendo receber estratégias terapêuticas específicas baseadas em imunoterapia.

Câncer colorretal

A maioria dos cânceres colorretais não responde à imunoterapia.

Entretanto, aproximadamente 5% dos tumores apresentam deficiência do sistema de reparo do DNA (dMMR/MSI-H). Nesses pacientes, a imunoterapia tornou-se um dos tratamentos mais eficazes disponíveis, tanto em doença localizada quanto em doença metastática, proporcionando respostas duradouras em muitos casos.

Carcinoma hepatocelular

No câncer primário do fígado, a imunoterapia revolucionou o tratamento da doença avançada.

Atualmente, combinações de imunoterapia com outros medicamentos são consideradas uma das principais opções de tratamento inicial para muitos pacientes, oferecendo melhores resultados quando comparadas aos tratamentos disponíveis anteriormente.

Imunoterapia nos cânceres urológicos

Os tumores do aparelho urinário também passaram por uma importante transformação com a chegada da imunoterapia.

Câncer de bexiga

A imunoterapia pode ser utilizada em diferentes fases da doença.

Ela pode fazer parte do tratamento após a cirurgia em pacientes com maior risco de recorrência, ser administrada em combinação com quimioterapia na doença avançada ou utilizada isoladamente em situações específicas.

Além disso, uma forma diferente de imunoterapia — a aplicação intravesical do BCG — é utilizada há muitos anos no tratamento do câncer de bexiga superficial, reduzindo significativamente o risco de recidiva.

Câncer de rim

No carcinoma de células renais metastático, a imunoterapia tornou-se um dos pilares do tratamento.

Ela pode ser utilizada em combinação com outra imunoterapia ou associada a medicamentos chamados terapias-alvo, proporcionando aumento da sobrevida e maior controle da doença.

Câncer de próstata

A imunoterapia ainda possui papel limitado no tratamento do câncer de próstata.

Entretanto, pacientes cujos tumores apresentam deficiência do sistema de reparo do DNA (dMMR/MSI-H) ou outras alterações moleculares específicas podem se beneficiar dessa estratégia.

Quais são os efeitos colaterais?

Em geral, a imunoterapia costuma ser melhor tolerada do que a quimioterapia tradicional.

Como ela estimula o sistema imunológico, seus efeitos adversos são diferentes. Em vez de atacar diretamente células normais, ela pode fazer com que o sistema imunológico reaja contra tecidos saudáveis do próprio organismo.

Essas reações são chamadas de eventos adversos imunomediados e podem acometer praticamente qualquer órgão, incluindo pele, intestino, pulmões, fígado, tireoide, hipófise e rins.

Os sintomas variam bastante e podem incluir manchas na pele, diarreia, tosse persistente, falta de ar, alterações hormonais, fadiga intensa ou aumento de exames laboratoriais.

A maioria dessas complicações é controlável quando identificada precocemente. Por isso, é fundamental comunicar rapidamente ao oncologista qualquer sintoma novo durante o tratamento.

O futuro da imunoterapia

A pesquisa em imunoterapia avança rapidamente.

Novos medicamentos, novas combinações terapêuticas e estratégias para ampliar o número de pacientes que respondem ao tratamento estão sendo avaliados em estudos clínicos realizados em todo o mundo.

Além disso, a integração entre imunoterapia, medicina de precisão e testes moleculares permite um tratamento cada vez mais individualizado, baseado nas características biológicas de cada tumor.

Esse é um dos maiores avanços da oncologia moderna: oferecer terapias mais eficazes, direcionadas ao perfil de cada paciente e capazes de melhorar tanto a sobrevida quanto a qualidade de vida.

A importância da avaliação individual

A imunoterapia representa uma das maiores conquistas da medicina nas últimas décadas, mas ela não substitui todos os outros tratamentos nem é indicada para todos os pacientes.

A escolha da melhor estratégia depende de diversos fatores, como o tipo de câncer, o estágio da doença, o estado geral de saúde, os tratamentos já realizados e os resultados dos testes moleculares e biomarcadores.

Por isso, a avaliação individualizada realizada pelo oncologista é fundamental para definir quando a imunoterapia pode oferecer o maior benefício, sempre baseada nas melhores evidências científicas disponíveis.