Medicina de precisão e testes moleculares no tratamento do câncer

Nos últimos anos, a forma como tratamos o câncer mudou profundamente. Se antes os tumores eram classificados principalmente pelo órgão onde surgiam — como mama, pulmão, intestino ou estômago — hoje sabemos que cada câncer possui características biológicas próprias que podem influenciar sua evolução e sua resposta aos tratamentos.

Esse conhecimento deu origem à chamada “medicina de precisão”, uma abordagem que utiliza informações genéticas e moleculares do tumor para oferecer um tratamento mais individualizado.

Na prática, isso significa que dois pacientes com o mesmo tipo de câncer podem receber tratamentos diferentes, porque seus tumores apresentam alterações moleculares distintas.

Essa mudança representa um dos maiores avanços da oncologia nas últimas décadas e tem permitido tratamentos mais eficazes e, em muitos casos, com menos efeitos colaterais.

O que é medicina de precisão?

A medicina de precisão é uma forma de cuidar do paciente baseada nas características específicas do seu câncer.

Em vez de escolher o tratamento apenas pelo local onde o tumor surgiu, o oncologista também considera alterações presentes nas células tumorais, conhecidas como biomarcadores.

Esses biomarcadores ajudam a responder perguntas importantes, como:

  • Qual tratamento tem maior chance de funcionar?
  • Existe alguma terapia-alvo indicada?
  • A imunoterapia pode ser eficaz?
  • O risco de recorrência é maior ou menor?
  • O paciente pode participar de estudos clínicos com novos tratamentos?

Nem todos os pacientes precisam realizar os mesmos testes, e a indicação depende do tipo e do estágio do câncer.

O que são testes moleculares?

Os testes moleculares são exames realizados no tecido do tumor — obtido por biópsia ou cirurgia — ou, em algumas situações, em uma amostra de sangue.

Eles identificam alterações no DNA, no RNA ou em proteínas produzidas pelas células do câncer.

É importante entender que essas alterações geralmente estão presentes apenas no tumor e não significam, necessariamente, que a doença seja hereditária.

Em outras palavras, encontrar uma alteração genética no câncer não quer dizer que ela será transmitida aos filhos.

Quando existe suspeita de predisposição hereditária ao câncer, são realizados testes específicos, diferentes daqueles utilizados para estudar o tumor.

O que são biomarcadores?

Biomarcadores são características biológicas capazes de fornecer informações importantes sobre o comportamento do câncer.

Alguns biomarcadores ajudam a confirmar o diagnóstico.

Outros indicam se determinado tratamento tem maior chance de funcionar.

Atualmente, diversos biomarcadores já fazem parte da rotina da oncologia moderna, permitindo tratamentos cada vez mais personalizados.

Como os testes moleculares ajudam no tratamento?

Os testes moleculares podem mudar completamente a estratégia terapêutica.

Em alguns pacientes, eles identificam alterações para as quais já existem medicamentos específicos, chamados terapias-alvo.

Esses medicamentos atuam diretamente sobre alterações presentes nas células tumorais, interferindo nos mecanismos responsáveis pelo crescimento do câncer.

Em outras situações, os testes mostram que o paciente poderá se beneficiar da imunoterapia, tratamento que estimula o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater o tumor.

Também existem casos em que o exame demonstra que determinado tratamento provavelmente não será eficaz, evitando que o paciente seja exposto a medicamentos desnecessários e seus possíveis efeitos colaterais.

Medicina de precisão no câncer gastrointestinal

Os tumores do aparelho digestivo estão entre aqueles que mais se beneficiaram dos avanços da medicina de precisão.

Hoje, em diversos tipos de câncer gastrointestinal, a realização de testes moleculares faz parte da avaliação inicial ou do planejamento terapêutico.

Câncer colorretal

No câncer de intestino, a pesquisa de alterações nos genes KRAS, NRAS e BRAF, além da avaliação da deficiência das enzimas de reparo do DNA (MMR) ou da instabilidade de microssatélites (MSI), tornou-se rotina.

Essas informações ajudam a definir o uso de terapias-alvo e imunoterapia.

Em alguns pacientes, também podem ser pesquisadas alterações como HER-2, NTRK e mutações no gene KRAS G12C, que permitem tratamentos específicos.

Câncer de estômago

Nos tumores gástricos avançados, diferentes biomarcadores podem modificar o tratamento.

Entre eles destacam-se:

  • HER-2
  • PD-L1
  • Deficiência das enzimas de reparo do DNA (MMR) ou instabilidade de microssatélites (MSI)
  • Claudina 18.2

Cada um desses exames pode indicar o benefício de terapias-alvo ou imunoterapia, ampliando as opções de tratamento.

Câncer de esôfago

Nos adenocarcinomas do esôfago e da transição esofagogástrica, biomarcadores como HER-2, PD-L1 e MSI/MMR também podem orientar a escolha do tratamento.

Nos carcinomas de células escamosas, a expressão de PD-L1 frequentemente auxilia na indicação de imunoterapia.

Câncer de pâncreas

Embora o câncer de pâncreas ainda seja uma doença desafiadora, a medicina de precisão também trouxe avanços importantes.

Pacientes com alterações hereditárias nos genes BRCA1, BRCA2 ou PALB2, por exemplo, podem se beneficiar de tratamentos específicos.

Além disso, alterações mais raras, como fusões nos genes NTRK, alterações em RET, BRAF, KRAS G12C e deficiência de MMR/MSI, podem abrir novas possibilidades terapêuticas para um pequeno grupo de pacientes.

Tumores das vias biliares

No colangiocarcinoma, os testes moleculares são especialmente importantes.

Alterações em genes como FGFR2, IDH1, BRAF, HER-2, RET, NTRK e deficiência de MMR/MSI podem identificar pacientes elegíveis para terapias-alvo e imunoterapia.

Por isso, atualmente recomenda-se que praticamente todos os pacientes com doença avançada realizem perfil molecular ampliado.

O que é sequenciamento de nova geração (NGS)?

Em muitos casos, diversos biomarcadores precisam ser pesquisados ao mesmo tempo.

Para isso, utiliza-se uma tecnologia chamada sequenciamento de nova geração (NGS, do inglês Next Generation Sequencing).

Esse exame analisa centenas de genes simultaneamente utilizando uma pequena amostra do tumor.

Além de aumentar a chance de identificar alterações tratáveis, o NGS evita a necessidade de múltiplos exames separados e pode preservar material da biópsia.

Seu uso é particularmente útil em tumores avançados, raros ou quando existem várias terapias-alvo disponíveis.

O que é biópsia líquida?

Além da análise do tecido tumoral, hoje também é possível estudar fragmentos do DNA do câncer que circulam na corrente sanguínea.

Esse exame é conhecido como biópsia líquida.

A biópsia líquida não substitui completamente a biópsia convencional, mas pode ser extremamente útil em algumas situações, como:

  • quando não há tecido suficiente para novos testes;
  • quando uma nova biópsia apresenta riscos;
  • para identificar mecanismos de resistência aos tratamentos;
  • para acompanhar alterações moleculares ao longo da evolução da doença.

Essa tecnologia tem sido cada vez mais utilizada na prática clínica e sua aplicação continua em expansão.

Todos os pacientes precisam fazer testes moleculares?

Não.

A necessidade dos testes depende de diversos fatores, como:

  • o tipo de câncer;
  • o estágio da doença;
  • a disponibilidade de tratamentos direcionados;
  • a quantidade de tecido obtida na biópsia;
  • a presença de histórico familiar sugestivo de predisposição hereditária.

Em alguns tumores, apenas poucos biomarcadores são necessários.

Em outros, principalmente nos casos avançados, uma avaliação molecular mais abrangente pode trazer informações importantes para o planejamento terapêutico.

O papel do oncologista na medicina de precisão

A medicina de precisão não consiste apenas em solicitar exames sofisticados.

O maior desafio está em interpretar corretamente os resultados e utilizá-los para tomar decisões individualizadas.

Nem toda alteração encontrada representa uma oportunidade de tratamento, e muitas precisam ser analisadas dentro do contexto clínico de cada paciente.

Por isso, a escolha dos testes, a interpretação dos laudos e a definição do melhor tratamento devem sempre ser feitas por um oncologista com experiência na área.

A medicina de precisão tornou o tratamento do câncer mais personalizado do que nunca. Ao combinar conhecimento científico, testes moleculares e terapias inovadoras, é possível oferecer estratégias mais direcionadas, aumentando as chances de benefício e evitando tratamentos desnecessários. Cada paciente é único, e compreender as características do seu tumor é um passo fundamental para definir o tratamento mais adequado.